top of page

O problema das espécies exóticas invasoras no Ceará

Atualizado: 18 de abr. de 2025

O Ceará abriga ao menos 68 espécies exóticas invasoras, de acordo com a Base Nacional de Dados do Instituto Hórus. Essas espécies ameaçam a biodiversidade e trazem impactos negativos à economia local


A imagem mostra três espécies invasoras: o peixe-leão, um gato doméstico predando um pássaro, e tilápias, exemplificando como esses animais exóticos ameaçam a biodiversidade local.
Peixes, gatos e muitos outros animais animais estão inseridos na lista de espécies exóticas no Ceará (Reprodução/Canva)

Estendendo-se por 15 bairros de Fortaleza, ao lado de prédios, casas e empreendimentos milionários, uma área verde se destaca. Capaz de reduzir a temperatura da cidade e abrigar uma rica biodiversidade, o Parque Estadual do Cocó disputa espaço com a especulação imobiliária e resiste. Aqui, o som de pássaros se mescla ao barulho insistente de buzinas. Estamos na maior Unidade de Conservação (UC) em área urbana do Norte/Nordeste, a quarta maior da América Latina.


Com uma área de 1581,29 hectares, o maior fragmento verde da Capital cearense preserva dezenas de espécies. No entanto, a biodiversidade contida no espaço é constantemente ameaçada pela introdução de espécies exóticas.


Ao chegar no parque, os primeiros animais que nossa equipe avista não são silvestres, mas gatos domésticos. Não estão ali espontaneamente, foram vítimas do abandono humano.


Ao pensar em espécies exóticas invasoras, provavelmente as primeiras imagens que vem à sua mente são ratos, pombos e até insetos. No entanto, é classificada como exótica invasora qualquer espécie inserida em um habitat que não é o seu de origem e que criou um descontrole populacional nesse ambiente. A introdução de espécies exóticas invasoras é, hoje, a segunda maior causa da perda de biodiversidade do mundo. 


Nem toda espécie exótica é invasora”, afirma Hugo Fernandes, biólogo e professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Um exemplo é o furão (Mustela putorius furo), de origem europeia. Apesar de ser exótico no Brasil, o animal não é considerado invasor, porque não apresenta descontrole populacional.


No Ceará, existem pelo menos 68 espécies de fauna e flora classificadas como exóticas invasoras. As informações são da Base Nacional de Dados do Instituto Hórus, que, desde 2004, realiza levantamentos sobre espécies exóticas no Brasil. Nesta reportagem, iremos nos aprofundar sobre os perigos da fauna exótica invasora no estado.


Animais como gatos, cachorros, bodes, cabras, jumentos, javalis e ratos fazem parte da extensa lista de espécies exóticas invasoras presentes no território cearense. Além de predarem a fauna, eles modificam o habitat local e competem com espécies nativas por alimentos. 


Fernandes ilustra como acontece a competição: “Vou dar o exemplo do gato doméstico. Se ele diminui a quantidade de presas, de bichinhos que ele come na natureza, o que vão comer os carnívoros silvestres, como o gato-do-mato, a raposa e o guaxinim? Você diminui essa disponibilidade.”



Fofos e mortais; gatos são uma das principais ameaças aos ecossistemas terrestres


 A imagem mostra um gato deitado sobre uma superfície de concreto com uma pintura desgastada de cor azul. Ao fundo, há uma área de areia e vegetação rasteira, sugerindo um ambiente ao ar livre.
O Parque Estadual do Cocó é um ponto de abandono de gatos (Foto: Lóren Souza)

Originários do Oriente Médio, os gatos começaram a ser domesticados há cerca de 12 mil anos. A relação entre felinos e seres humanos começou com uma troca mútua: enquanto os gatos encontravam nas propriedades agrícolas uma grande quantidade de roedores que serviam de alimento, os humanos tinham seus estoques protegidos dos avanços de pragas.


Com grandes habilidades de adaptação e eficiência como predadores, os fofos, e quase sempre carismáticos, gatos se espalharam por todos os continentes, com exceção da Antártida. O que a maioria da população não imagina é que o crescimento desenfreado da espécie representa um enorme risco à biodiversidade dos ecossistemas terrestres. 


De acordo com Fernandes, que também foi responsável por coordenar o projeto que resultou na Lista Vermelha Espécies Ameaçadas da Fauna do Ceará, os gatos são responsáveis pela extinção de 33 espécies em todo o globo terrestre. Eles são os exóticos invasores que já extinguiram mais vertebrados do que qualquer outro predador.


“O gato é um negócio sensacional, mas dentro de casa é o lugar dele. Quando ele tá na rua, sobretudo envolvido em áreas silvestres, áreas de parques urbanos e florestas, ele se torna um problema gravíssimo”, explica o biólogo.

Isso acontece porque a dieta dos bichanos não se restringe apenas a ratos, insetos ou outros animais indesejados em ambientes domésticos.  Segundo estudo publicado pela revista Nature, o extenso cardápio dos gatos inclui mais de 2 mil espécies, das quais 347 correm risco de extinção. 


Por que o seu gato não deve ter acesso à rua? 


Apesar de parte dos gatos domésticos ao redor do mundo estarem sob tutoramento humano, nem todos têm acesso restrito à rua. Além de expor os animais a doenças e possíveis acidentes, como atropelamentos, as “voltinhas” permitidas pelos tutores, representam um risco silencioso à fauna local. 


Para evitar riscos à vida do gato e dos silvestres, o ideal é manter o felino totalmente sem acesso à rua, fazendo a utilização de telas em janelas e áreas abertas. Outra forma de reduzir o estresse do bichano e que ajuda a mantê-lo em casa é a castração.


A relação entre o abandono de animais domésticos e a diminuição da biodiversidade


Os gatos que vivem livres em áreas urbanas e rurais são os que mais preocupam especialistas em conservação. Quando vítimas de abandono, os felinos se reproduzem rapidamente enquanto diminuem drasticamente o número de espécies nativas.


No Ceará, os gatos são um grave problema dentro das Unidades de Conservação. Como já mencionado nesta reportagem, o Parque Estadual do Cocó é hoje um dos principais pontos de abandono dos animais de Fortaleza. 


Tadeu Lavour, coordenador da Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais (Coani) aponta que o Parque Adahil Barreto, área integrante do Parque do Cocó, é fortemente afetado pela presença de gatos. “A gente já contabilizou mais de 60. Eles competem com os animais silvestres, são caçadores natos. Caçam lagartixas, iguanas, pequenos roedores, saguis, pássaros e até borboletas”, expõe.


Formada em administração, Mara Pinto há cerca de 5 anos decidiu acolher também o amor pelos animais, entrando no curso de medicina veterinária. Na época da realização desta entrevista, em abril deste ano, Mara atuava como auxiliar administrativo do Parque do Cocó. Ao conversar com nossa equipe, ela contou que desde o começo do seu trabalho no parque ela se preocupou em minimizar os impactos do abandono de animais na UC.


A estudante apontou que, ao competir com espécies nativas, os gatos domésticos são oponentes desleais por estarem presentes em grande quantidade nos ambientes e por terem uma maior capacidade de adaptação do que os silvestres.


O parque já chegou a um momento crítico em que foram contabilizados 273 gatos em situação de abandono. Mara relata que existiram momentos em que ela “sentava e começava a chorar”, porque a maioria dos felinos estavam doentes, debilitados e idosos. Além disso, os recursos e políticas públicas eram escassos.


De acordo com a estudante de medicina  veterinária, após vários trabalhos de castração e adoção, o número de gatos caiu em mais de 90%. O trabalho colaborativo entre ONGs e protetores é um dos principais fatores para essa diminuição. Hoje cerca de 23 gatos ainda circulam pela UC.


Como resolver a problemática?


Perguntado sobre o que está sendo realizado pela Coani para reduzir o impacto, Lavour admite que, no momento, não há nenhuma ação em andamento. “Não podemos simplesmente tirá-los daqui porque não temos para onde levá-los”.


“A gente espera que, mais na frente, a Secretaria de Proteção Animal (Sepa), que foi recentemente criada, tenha condições de amparar esses animais para poder retirá-los daqui, já que este não é um ambiente adequado para eles conviverem”, finaliza.   


Para Fernandes, a redução de espécies exóticas no Ceará só será possível com a realização de um trabalho constante e colaborativo entre Estado e sociedade. Políticas públicas como a do Vet Móvel, que realiza consultas e castrações nos bairros, ajudam a reduzir a reprodução em massas de espécies como o gato e o cachorro, mas ainda é necessário a criação de políticas efetivas para a mitigação da problemática.




A ameaça às águas



A imagem mostra um peixe-leão, conhecido por suas listras marcantes e espinhos venenosos. Ele possui nadadeiras longas e raiadas, com padrões complexos que lhe dão uma aparência exótica e perigosa.
O peixe-leão tem alta capacidade reprodutiva e está se espalhando por toda a costa brasileira (Foto: Wikimedia Commons)

Longe da mata, a tranquilidade dos verdes mares da costa cearense também é ameaçada por espécies invasoras, como o peixe-leão (Pterois spp). Natural do oceano Indo-Pacífico, região que vai da Índia à Oceania, o animal invadiu o litoral do Caribe nos anos 80, após ser solto de aquários de forma inadequada.


A espécie alcançou a América do Sul no início da década passada, quando chegou à costa da Venezuela. Anos mais tarde, em 2018, o peixe foi registrado pela primeira vez no Brasil, no litoral da região norte. 


Desde então, ele já chegou até Alagoas e a previsão é que se espalhe até o Rio Grande do Sul nos próximos anos, de acordo com Marcelo Soares, pesquisador e docente do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC.


Impactos nos ecossistemas marinhos


No litoral cearense, a presença da espécie impacta diretamente o ecossistema marinho, já que o animal não possui predador natural na região. Sem ameaças, ele se alimenta livremente de peixes nativos, reduzindo inúmeras populações. 


“Nós ainda estamos estudando [o impacto], né? Mas o que é um fato é que a gente tem aberto os estômagos desse animal e [tem visto que] ele tem se alimentado de crustáceos, em menor quantidade, e principalmente, mais de 90%, de peixes nativos”, afirma Soares.


Ao diminuir a quantidade de espécimes nativos, o peixe-leão contribui para o crescimento excessivo de algas marinhas, impactando o ecossistema das áreas onde se estabelece.


“Vou dar um exemplo: alguns peixes são herbívoros, eles se alimentam de algas. Esses peixes, que se alimentam de algas, ao terem suas abundâncias reduzidas pelo peixe-leão, fazem com que as algas aumentem no ecossistema marinho [porque não são ingeridas]. Isso modifica totalmente o ambiente porque você começa a ter um desequilíbrio entre os organismos que formam o fundo do mar”, explica o especialista. 


Além do ambiente marinho, a presença do animal nas águas que banham a costa do Estado também ameaça a economia de pequenas comunidades litorâneas, já que afeta a pesca artesanal. A modalidade, exercida em pequena escala e sem grandes fins comerciais, é desempenhada por pequenos pescadores, que moram nessas localidades.


“Ele impacta a economia local, principalmente através da redução de recursos pesqueiros locais, porque ele acaba impactando a fauna nativa. Então, afeta tanto a geração de renda como também a alimentação de pescadores, a subsistência [deles]”, diz o pesquisador.

Riscos à saúde humana


Os animais ainda representam risco à saúde dos profissionais por liberarem toxinas. Apesar de não possuir capacidade de matar um ser humano, a substância pode causar febre e dor, segundo o oceanógrafo Oscar de Sousa, especialista em Oceanografia Biológica.


Ele tem 18 espinhos venenosos ao longo de todo o corpo. Então, o manuseio tem que ser com o máximo de cuidado. Se existir um avistamento, durante uma pesca, [podem] ocorrer acidentes com o peixe-leão, mas ele não chega a matar. Ele dá dor, febre, inchaço e vermelhidão”, esclarece o cientista. 


Os efeitos do contato com a espécie foram relatados em notícia publicada pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), em abril de 2022. Na matéria, o órgão confirma um acidente envolvendo o peixe e um pescador do município de Barroquinha. O homem teria apresentado dor no pé, febre e até convulsões após pisar acidentalmente em um espécime, na praia de Bitupitá.


Como resolver a questão?


Ainda segundo Oscar, a melhor forma de solucionar o quadro é realizando a captura dos espécimes. O procedimento, no entanto, enfrenta barreiras financeiras. “Quanto mais se captura, quanto mais se retira, melhor é. O problema é que, no nosso estado, assim como no restante do Brasil, um mergulho [necessário para a captura] não é barato, é super caro”.


No Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, única Unidade de Conservação (UC) marinha do Ceará, a solução também foi recorrer à captura do peixe, que ameaçava a biodiversidade do local. 


“Na Unidade de Conservação, não pode caçar e nem capturar nenhum animal, só se tiver alguma autorização específica. Então, a gente criou a instrução normativa específica para poder capturar e eliminar ele do parque. A gente vai fazer um curso com os mergulhadores, de captura do peixe-leão, vai cadastrar o pescador para ele realmente capturar e encaminhar esses peixes para o Labomar, para pesquisa.”, relata Thaís Pereira, atual gestora do parque.


Apesar do esforço, Pereira admite que o procedimento só deve diminuir o número de espécimes, e não os erradicar completamente do local. Ainda assim, a captura segue sendo a melhor opção para lidar com a questão:


“Uma coisa que a gente sabe é que a gente não vai conseguir eliminar ele 100%, mas a gente tem que mitigar o tempo todo, porque, se não, vai ter só peixe-leão [na unidade] daqui a um tempo”.

Para acompanhar o avanço da espécie exótica no litoral do Ceará, pesquisadores do Labomar desenvolveram o projeto de pesquisa “Monitoramento Participativo do Peixe-Leão”. A iniciativa conta com um aplicativo, em que é possível compartilhar informações sobre avistamentos do peixe, como localidade e distância da praia.


“Esse aplicativo é usado para induzir um monitoramento participativo, em que pescadores, mergulhadores e gestores públicos podem informar [sobre a presença do peixe]. A gente faz a checagem desses dados e eles são colocados em um dashboard online, onde você consegue ver os registros do peixe-leão ao longo da costa brasileira”, afirma Soares, um dos envolvidos no projeto.



Tilápia


Várias tilápias nadando em água doce
Embora a tilápia seja um importante recurso alimentar e econômico, sua natureza invasora levanta preocupações sobre os impactos ecológicos (Foto: Canva)

Facilmente encontrada nos supermercados e restaurantes cearenses, a tilápia é vista por muitos como uma espécie nativa do estado. A origem do peixe, no entanto, é outra: segundo Tommaso Giarizzo, professor visitante sênior do Labomar, o animal é natural da África.

O pesquisador afirma que os primeiros registros de liberação da espécie em corpos hídricos brasileiros são da década de 70. Ao longo dos anos, o peixe se popularizou entre os brasileiros, passando a ser um negócio lucrativo para a aquicultura.


“O problema é que incentivar esse tipo de criação de peixe, que não é nativo, é muito delicado, especialmente pelo fato que não há sistemas de aquiculturas que sejam perfeitamente seguros. Você pode fazer um tanque cavado na terra para criar os peixes? Pode fazer, mas se ocorrer uma enchente ou uma ruptura do tanque, esta água vai alcançar corpos hídricos e, através da rede hidrológica, pode se dispersar em vários ambientes aquáticos”, explica Giarizzo.


Mostrando-se resistente e facilmente adaptável, a tilápia dominou córregos, rios e lagoas, desde o momento em que foi introduzida no país. A dispersão é encarada, por cientistas, como um risco à espécimes nativos.


É uma espécie que, uma vez introduzida, pode virar invasora, causando impactos ambientais porque pode transferir patógenos, pode aumentar as taxas de eutrofização, ou seja, pode causar o aumento excessivo de organismos como algas. Além disso, também compete com as espécies nativas, no que diz respeito ao espaço, porque é uma espécie territorialista, e no que diz respeito à alimentação”, conta o pesquisador.


No Ceará, a tilápia pode ser encontrada até mesmo em unidades de conservação, como a Área de Proteção Ambiental (APA) da Lagoa de Jijoca, em Jericoacoara. De acordo com o docente, a presença do animal na região ameaça a biodiversidade local


“Isso é muito preocupante. As unidades de conservação, que deveriam ter o papel de proteger a biodiversidade local, na verdade, estão sendo ameaçadas por essa espécie não nativa. Isso é extremamente grave e preocupante”, alerta o especialista.


Giarizzo ainda chama atenção para o fato da inserção do peixe na lagoa ser uma violação da Portaria 145 do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de 1998, que proíbe a introdução de peixes de água doce não nativos em corpos hídricos do Brasil.


“Essa tilápia não veio logicamente do céu. Essa tilápia foi introduzida por pessoas de forma proposital, cometendo duas vezes um crime, né? Desrespeitando a portaria do Ibama e fazendo isso em uma unidade de conservação”, declara o cientista.


Para o docente, a problemática poderia ser resolvida caso as autoridades “prestassem atenção” ao quadro:

“Infelizmente, falta, como sempre, preocupação por parte dos órgãos municipais, estaduais e federais. [Falta] ter uma melhor comunicação com a comunidade científica, para que possam receber efetivamente as orientações técnicas adequadas”, finaliza.

 
 
 

Comentários


ENCONTRE NOSSO TRABALHO EM OUTRAS PLATAFORMAS

SITE DESENVOLVIDO POR ISABELLA RIFANE

  • Instagram
  • YouTube
  • Email
bottom of page