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Futuro incerto: causas e impactos da ameaça de extinção no Ceará

Dos 3.868 animais presentes no Estado, ao menos 107 são considerados "ameaçados de extinção". O quadro pode afetar permanentemente a biodiversidade da região

Apesar da importância histórica e cultural para o Ceará, a Aratinga jandaya parece na lista de espécies ameaçadas de extinção no território estadual (Reprodução/Fábio Nunes)
Apesar da importância histórica e cultural para o Ceará, a Aratinga jandaya parece na lista de espécies ameaçadas de extinção no território estadual (Reprodução/Fábio Nunes)

Verde como a folhagem da caatinga durante o período chuvoso, azul como os rios que cortam o Estado, amarela e alaranjada como o céu em um fim de tarde na Terra do Sol. Remetendo tão precisamente às cores presentes na natureza cearense, a coloração das penas da Aratinga jandaya já seria, por si só, suficiente para justificar o título de ave símbolo do Ceará.


A reputação, no entanto, se deve à outra característica do animal: o canto. Segundo teorias populares, o nome “Ceará” surgiu a partir da junção dos termos indígenas usados na expressão “onde canta a Jandaia” ou “canto da Jandaia”.


Mesmo assim, apesar da importância histórica e cultural para o Estado, a ave enfrenta uma realidade dolorosa em terras cearenses. De acordo com o Inventário da Fauna do Ceará, lançado pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) em 2021, a Aratinga jandaya aparece na lista de espécies ameaçadas no território estadual.


Além da ave, outros 106 animais do total de 3.868 encontrados no Estado também aparecem na listagem, que inclui anfíbios, répteis, aves e mamíferos terrestres e aquáticos.


Como um animal é considerado “ameaçado”?

Antes de discutir o quadro, entretanto, é importante conhecer o trabalho desenvolvido pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).


Fundada em outubro de 1948, a IUCN foi a primeira organização do planeta a promover debates sobre a necessidade de proteger a natureza, incentivando a cooperação entre pesquisadores de diferentes países e o desenvolvimento do conhecimento científico necessário para a realização de ações em prol da conservação da biodiversidade.


Uma dessas iniciativas é a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Criada em 1964, a listagem utiliza diferentes critérios, como redução populacional e distribuição geográfica, para classificar o nível de ameaça de extinção de cada espécime. 

Os parâmetros usados para categorizar as espécies na lista tornaram-se referência internacional, padronizando o material levantado em listagens regionais e facilitando o monitoramento de cada quadro.


Espécies ameaçadas no Ceará

Em relação ao território cearense, os dados mais precisos sobre o assunto estão presentes no Inventário da Fauna do Ceará, desenvolvido pela Sema em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), da Universidade Regional do Cariri (Urca), da Universidade Estadual do Ceará (Uece), da Universidade Federal do Cariri (UFCA), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA) e da ONG Aquasis.


Pensado como uma forma de auxiliar estudos e justificar políticas públicas de conservação, o documento reúne informações sobre as espécies vertebradas e invertebradas existentes no Estado, sejam elas endêmicas ou não. Vale lembrar que animais endêmicos são aqueles que só podem ser encontrados em uma determinada região.


A elaboração do inventário permitiu a criação da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da Fauna do Ceará. Na listagem, que segue os critérios estabelecidos pela IUCN, aparecem 54 aves, 34 mamíferos, 16 répteis e 3 anfíbios.


Fauna marinha

Peixe-boi-marinho

Um dos principais exemplos de espécies comprometidas é o Trichechus manatus, o peixe-boi-marinho. Encontrado normalmente na costa leste do Estado, ele pesa, em média, 700 kg e atinge até 3,5 m ao chegar à fase adulta.


Na lista cearense de animais ameaçados, o mamífero recebe a classificação “CR”, ou seja, é considerado criticamente em perigo. O quadro originou-se ainda no período colonial brasileiro, quando inúmeros espécimes passaram a ser caçados devido ao corpo robusto, que rendia abundantes quantidades de carne e gordura, segundo o livro “Peixe-boi-marinho: Biologia e Conservação no Brasil”, desenvolvido pela ONG Aquasis.


A organização administra o Programa De Mamíferos Marinhos (PMM), iniciativa que estuda e acompanha mamíferos aquáticos ameaçados no Ceará. O projeto também resgata e reabilita os animais em caso de encalhe nas praias do litoral.


Integrante do programa, a bióloga Andressa Fraga explica que, atualmente, a principal ameaça aos espécimes é a degradação ambiental, causada por inúmeros fatores.


“Degradação ambiental é um leque, né? O nosso próprio meio e estilo de vida, o uso que a gente faz do ambiente marinho [causam isso]. Então, lixo, plástico, degradação da área costeira, desmatamento da mata ciliar, tudo isso vai interferir na dinâmica marinha e vai interferir diretamente na população não só de peixe-boi, mas dos animais marinhos como um todo”, aponta ela.


É importante reverter o quadro, pois o desaparecimento da espécie poderia resultar em diversos impactos no ecossistema litorâneo do Estado, como o crescimento descontrolado da vegetação aquática. Isso porque o peixe-boi se alimenta de significativas quantidades de plantas, incluindo, por exemplo, o capim-marinho. Sem o controle indireto, a qualidade da água seria afetada e a penetração de luz no oceano diminuiria, afetando a alimentação e a qualidade de vida das demais espécies presentes nesses habitats.



Tartarugas marinhas

Outros animais impactados pelas ações do homem são as tartarugas marinhas. No litoral cearense, é possível encontrar quatro espécies do réptil: cabeçuda, de pente, oliva e verde. A tartaruga-de-couro, que completa o quinteto de espécies marinhas brasileiras, também aparece na costa do Estado, mas em menor frequência.


De acordo com a Lista Vermelha do Inventário da Fauna do Ceará, elas são classificadas, respectivamente, como vulnerável (vu), em perigo (en), vulnerável (vu) e menos preocupante (lc), enquanto a de couro é considerada criticamente em perigo (cr).


“Todas as tartarugas marinhas do Brasil estão em risco de extinção internacionalmente. Em um recorte nacional, a verde recentemente saiu da lista [de ameaça de extinção]. A gente ainda tem que dar uma atenção pra ela, mas, assim, se a população dela diminuir, ela não vai chegar a ser extinta. Não ocorre o mesmo para as outras espécies. A tartaruga-de-pente e a tartaruga-de-couro ainda estão no nível quase máximo. Se elas passarem para a próxima etapa, elas vão ser consideradas extintas na natureza”, alerta Alice Frota, coordenadora do programa de conservação do projeto Grupo de Estudos e Articulações Sobre Tartarugas Marinhas (GTAR).


Parte do Instituto Verdeluz, a iniciativa monitora a presença das espécies no litoral de Fortaleza, realizando eventuais resgates e promovendo ações de educação ambiental nas comunidades próximas às praias.


Um dos objetivos do programa é impedir a diminuição da população de tartarugas. O declínio é resultado direto da presença do homem no habitat dos animais, segundo a pesquisadora. 


“Nos locais de reprodução, as praias, a gente afeta muito elas com a nossa presença mesmo. A passagem da gente por ali faz com que os ninhos sejam perturbados. Também tem o problema do lixo nas praias, porque esse lixo vai para o mar e as tartarugas comem. O lixo que fica em terra, muitas vezes, impede os filhotes de chegarem no mar, [porque] junta muito lixo num canto só, [então] as tartarugas ficam presas naquele mar de lixo e não conseguem ir para o mar”, afirma Frota.


Além da influência direta, os humanos também impactam o quadro indiretamente. Ainda de acordo com Alice, a iluminação artificial na orla fortalezense afeta os animais, que confundem o reflexo da lua e das estrelas no mar, por onde normalmente se guiam, com as luzes de postes, indo parar em calçadas e avenidas.


“Elas vão todas para os holofotes e é uma cena que eu espero nunca mais ver. É um amontoado de tartaruguinhas num poste de luz, todas mortas, porque tentaram subir para o poste e acabaram morrendo sem conseguir, porque elas ficam ressecadas, desidratadas, cansadas. Elas [não podem evitar, pois] só têm esse instinto de ‘seguir a luz’”, explica a especialista.

Por fim, as espécies ainda acabam sendo vítimas de “pesca indireta”, quando artefatos de pesca jogados no oceano, como redes e anzois, causam a morte dos animais. “Essa rede engancha nelas e elas não conseguem mais subir para respirar, então, elas morrem afogadas. Muitas vezes, elas também engolem os anzóis e esse anzol fica preso na garganta e elas morrem”, afirma Frota.


Por serem as principais responsáveis pelo controle das populações de águas-vivas, o desaparecimento das tartarugas marinhas causaria um desequilíbrio no ecossistema marinho


Outra contribuição dos animais é a fertilização das praias com a matéria orgânica dos ovos não eclodidos, favorecendo a vegetação costeira. Com a ausência das tartarugas, os ambientes costeiros também seriam prejudicados.



Fauna terrestre

Soldadinho-do-araripe

Tendo como lar a área florestal dos municípios de Missão Velha, Barbalha e Crato, no interior do Estado, o Antilophia bokermanni, popularmente conhecido como Soldadinho-do-araripe, é a única ave encontrada apenas no Ceará.


Apesar da exclusividade, o pássaro não está imune às ameaças de extinção. Na lista vermelha da Sema, ele é considerado criticamente em perigo (CR) e está entre as cinco espécies da fauna cearense mais ameaçadas de extinção, segundo informações do programa Oásis Araripe, iniciativa da Aquasis voltada para a preservação do animal.


Gerente do projeto e primeiro pesquisador a descrever o pássaro, o biólogo Weber Girão estuda a espécie há mais de duas décadas e afirma que, atualmente, existem pouco mais de 200 casais adultos de soldadinhos-do-araripe, quantidade preocupante.


“São 213 casais de acordo com o último censo de adultos. A gente tem mais do que isso contando com jovens, mas é uma faixa muito pequena, [então] tem menos soldadinhos-do-araripe do que pandas, por exemplo”, afirma o pesquisador.


Entre as principais causas para o cenário, o biólogo destaca a retirada de plantas próximas a rios e riachos para potencialização do escoamento de água, além da instalação de encanamentos irregulares, que diminuem a vazão das fontes e, consequentemente, secam a vegetação da região. Os quadros afetam a alimentação e a reprodução dos soldadinhos.


Além disso, incêndios e desmatamento de árvores para fins agropecuários ou imobiliários também impactam as áreas em que a ave vive, diminuindo seu habitat.


“O município onde a espécie foi descoberta é o que mais degrada as fontes de água e suas florestas. Além dos irregulares encanamentos totais de fontes, os incêndios têm se abatido sobre as encostas, onde o combate ao fogo é mais difícil de ser debelado. Em alguns lugares, as matas ficaram tão empobrecidas que se tornaram um mero babaçual. A cidade do Crato não respeita seu Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e a especulação imobiliária avança sobre as áreas verdes, o que se repete na Zona Rural de Barbalha e Missão Velha”, enfatiza Girão.

A extinção de uma espécie como o soldadinho-do-araripe pode ter uma série de consequências na região em que ela está inserida, como desequilíbrio ecológico, impactos na cadeia alimentar, empobrecimento do ecossistema e perda cultural - já que o pássaro representa um patrimônio simbólico exclusivo do Ceará.

Sapinho-de-maranguape

Medindo somente cerca de 12 mm na idade adulta, os pequenos Adelophryne maranguapensis são animais endêmicos da Serra de Maranguape, localizada no município de mesmo nome, na Região Metropolitana de Fortaleza.


O sapinho-de-maranguape, como é popularmente conhecido, ocupa uma área estimada de apenas 13 km² e costuma ser avistado entre as folhagens da mata serrana, escondido ao ponto de passar quase despercebido. 


Na vegetação úmida, a espécie aproveita a presença de bromélias para depositar os ovos durante o período reprodutivo. A existência das plantas, no entanto, é ameaçada por ações humanas, que acabam impactando na reprodução e, consequentemente, na perpetuação da espécie, como explica o biólogo Lucas Lima, mestrando em Biodiversidade e Conservação pela Universidade Federal do Piauí (PPGBC-UFPI) e colaborador do Museu de História Natural do Ceará (MHNCE).


“O sumiço das bromélias impede diretamente a espécie de se reproduzir, sendo causado pela remoção ilegal de bromélias para ornamentação, quando as pessoas vão realizar atividades ao ar livre na serra, e pela remoção de árvores velhas da floresta, o que reduz os troncos disponíveis para as bromélias se ancorarem”, afirma o especialista.


Além da ameaça às bromélias, o pesquisador ainda pontua o desmatamento na Serra de Maranguape como outro fator determinante para uma possível extinção da espécie no futuro, já que a redução da vegetação diminui ainda mais a limitada distribuição geográfica do animal.


“O desmatamento [completo] da floresta em altitudes acima dos 600 m reduziria ainda mais a sua distribuição, já que é uma espécie que depende da serrapilheira criada e da umidade mantida pela floresta. [...] Sem floresta e sem bromélia, o sapinho-de-maranguape está fadado à extinção”, declara Lima.

O desaparecimento do anfíbio afetaria todo o ecossistema da serra maranguapense, segundo o biólogo. “Por serem relativamente abundantes onde ocorrem, eles têm um papel fundamental nas relações presa-predador e na ciclagem de nutrientes do microambiente contido na serapilheira e dentro das bromélias. O sumiço dessa espécie certamente causaria impacto significativo nessas relações ecológicas”, explica.


Confira quais as espécies ameaçadas no Ceará


Quando devemos começar a nos preocupar com uma espécie?

De acordo com o biólogo e pesquisador da Universidade Estadual do Ceará, Hugo Fernandes, a maioria das pessoas só é impactada quando ocorre a extinção global de uma espécie, mas “a dor deveria vir muito antes". 


Segundo ele, os alertas devem ser acionados quando há a ameaça de extinção, porque, antes do desaparecimento global, animais ameaçados perdem a capacidade de cumprir o seu papel no ecossistema por estarem em quantidades insuficientes. “Perder uma espécie da natureza ou global é mais do que o atestado de falha, é a lápide!”, lamenta.


O pesquisador aponta que, com exceção da extinção global, todos os níveis de ameaça podem ser revertidos. O que acontece, no entanto, é que quanto maior o grau de ameaça de uma espécie, mais caro e mais trabalhoso é conseguir aumentar o número dessa população. 


Confira a explicação completa sobre os custos e dificuldades do processo de reversão dos graus de extinção


 




Resgatar, reabilitar e preservar: a contribuição das instituições não governamentais

Apesar dos inúmeros desafios, o que leva pesquisadores como Fernandes a continuar o trabalho com a biologia da conservação é a possibilidade de aumentar o tamanho das populações de espécies ameaçadas na natureza. No Ceará, as Organizações Não Governamentais (ONGs) têm um papel fundamental para resgatar, reabilitar e preservar esses animais. 


Aquasis

Fundada em 1994, a ONG Aquasis - Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos atua hoje principalmente com três projetos: o Programa de Mamíferos Marinhos (PMM), o Projeto Cara Suja e o Projeto Oásis Araripe. A instituição trabalha com “espécies bandeiras" como peixes-boi-marinhos e botos-cinza (Sotalia guianensis).


Espécies bandeiras são aquelas que estão ameaçadas de extinção e são consideradas mais "carismáticas", com o poder de engajar mais pessoas à causa da preservação. Protegendo os habitats dessas espécies, todas as outras presentes naquele ecossistema são preservadas.


Reabilitação do peixe-boi-marinho 

Após 12 meses de gestação, as fêmeas de peixes-boi buscam ambientes tranquilos, como estuários (áreas de encontro do rio com o mar) para terem os filhotes. Ao não encontrarem estes locais, o parto acontece em mar aberto e os filhotes acabam sendo arrastados pelas ondas e encalhando nas praias do litoral cearense.


No Estado, a Aquasis atua no resgate e na reabilitação de animais vítimas de encalhe. Segundo a bióloga Andressa Fraga, esses incidentes com peixes-boi são comuns no município de Icapuí.


A especialista conta que, após chegarem na sede da Aquasis, localizada no município de Caucaia, os espécimes ficam em reabilitação até atingirem a “idade mínima para voltarem para a natureza e terem a chance de voltar a desempenhar o papel ecológico deles”. 


Taxa de soltura e taxa de sucesso

O médico veterinário Felipe Catardo destaca que a taxa de soltura dos animais reabilitados costuma ser alta. Casos de óbito só acontecem quando o animal chega com uma debilidade muito alta. 


Ele explica que a equipe trabalha também com a “taxa de sucesso”, na qual são contabilizados os animais que conseguem se adaptar bem à natureza após serem soltos. A taxa não é fixa porque depende de fatores que variam de acordo com cada indivíduo.


Também existem casos em que as espécies não podem voltar à natureza por questões de saúde: “um problema congênito, alguma deformidade óssea, alguma enfermidade que esse animal pode levar para a população nativa”, exemplifica Catardo. 


Aclimatação

A aclimatação é a última fase de reabilitação de uma espécie antes dela voltar à natureza. No caso dos peixes-boi, é realizada em Icapuí. Fraga conta que, para transportar os animais de Caucaia para Icapuí, a Aquasis precisa montar uma verdadeira operação.


“A gente conta com o apoio do Corpo de Bombeiros, que vem para auxiliar no momento que o animal precisa ser içado, tem caminhão munck para poder içar esse animal e tem a cavalaria”. 


Segundo Catardo, é na aclimatação que os animais passam a ter contato direto com o ambiente marinho, se adaptando a fatores meteorológicos e oceanográficos, como vento, temperatura e condições do mar. 


De volta à natureza

Após a soltura, os animais são acompanhados por meio de um equipamento de telemetria, pelo qual uma equipe consegue monitorar o deslocamento de cada um dos reabilitados. 


“Durante um ano, pelo menos, a equipe de monitoramento está em campo constantemente para acompanhar o deslocamento desse animal, para observar se ele está se alimentando de recursos naturais, se ele está interagindo com animais nativos. E a gente vai mapeando o deslocamento dele”, destaca Fraga.


Um trabalho de esperança

Para os profissionais do PMM, atuar na reabilitação e preservação de uma espécie criticamente ameaçada, apesar de desafiador, é extremamente gratificante


“Sem sombra de dúvidas o que me move é contribuir, mesmo que só um pouquinho, para que esses animais tenham a chance de retornar para a natureza. Contribuir para que os peixes-boi continuem existindo e para que a população aumente. É muito gratificante quando a gente tem um processo de um animal que chegou aqui com poucos dias de vida e depois está sendo solto e tá sendo devolvido”, afirma Andressa Fraga.

O veterinário Felipe Catardo também compartilha o sentimento de esperança e satisfação ao trabalhar com a espécie. Confira o depoimento:





Oásis Araripe

O projeto Oásis Araripe atua com o monitoramento e o desenvolvimento de pesquisas para a conservação do pássaro exclusivo da Chapada do Araripe. De acordo com o biólogo Weber Girão, a principal ação da Aquasis, em relação à preservação do soldadinho-do-araripe, consiste “em experimentar técnicas de manejo de floresta e de águas”. 


As ações da entidade, no entanto, sofrem com a falta de recursos hídricos. Para lidar com a problemática, a Aquasis se dedicou aos estudos e às pesquisas e conseguiu transformar a Reserva Oásis Araripe em uma pioneira na “produção de água”, combinando recursos privados e públicos.


“A experiência adquirida está sendo aplicada em uma parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, através da Floresta Nacional do Araripe, coordenada pelo servidor Carlos Augusto Pinheiro, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do Araripe. Nossa maior ambição é povoar parte do planalto da chapada com o pássaro através do manejo da paisagem”,  enfatiza o biólogo.


Cara-Suja

Medindo cerca de 23 cm, com penas predominantemente verdes, cauda longa e uma mancha característica ao redor do rosto, o periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus) é uma espécie considerada criticamente ameaçada no Ceará.


Desde 2005, o projeto Cara Suja, da ONG Aquasis, trabalha na conservação da espécie e desenvolve estratégias para o aumento do número de indivíduos e também para reinserção da ave em ambientes em que foram extintas.



Instituto Verde Luz

Anualmente, a comunidade da Praia do Futuro, em Fortaleza, pode apreciar um momento fundamental do espetáculo da vida marinha. Com pequenos passinhos na areia dourada, dezenas de filhotes de tartarugas-de-pente partem pela primeira vez em direção ao mar. A soltura é feita com o auxílio da iniciativa GTAR, do Instituto Verdeluz. 


Criado em 2013, o Instituto Verdeluz surgiu a partir de um projeto de extensão  da Faculdade de Direito da UFC. O objetivo era unir meio ambiente e ação social. 


De acordo com a bióloga Alice Frota, coordenadora institucional do GTAR, o instituto ainda possui outros dois programas: o Grupo de Estudos e Articulações sobre Resíduos Urbanos (GRU), que trabalha principalmente com ações de preservação dos ambientes costeiros e educação ambiental, e o Clima de Urgência, que desenvolve ações de combate aos problemas socioambientais causados por atividades comerciais no Ceará. 


No caso do GTAR, os principais focos são as ações de educação ambiental e o monitoramento dos encalhes e ninhos de tartarugas-marinhas. Para a coordenadora, o acompanhamento dos ninhos é fundamental para a preservação das espécies. “Se não tivesse esse monitoramento na Praia do Futuro, esses ninhos não iam ser marcados, as pessoas e os carros iam passar por cima dos ninhos”. 


A Frota frisa que a ameaça de extinção das tartarugas é um sinal de alerta para toda a biodiversidade do oceano:

“Se nós não focarmos na preservação da megafauna, não conseguimos preservar o resto.  Se a tartaruga for extinta, significa que o meio não é próprio para ela viver, nem para o caranguejo, a raia, o tubarão, os bentos. É preservando a tartaruga que preservamos o resto”, alerta.

 A bióloga finaliza fazendo uma crítica à falta de ações por parte do poder público municipal no que se refere ao monitoramento das tartarugas marinhas ameaçadas na capital cearense: “Queria que o prefeito de Fortaleza entendesse isso, principalmente porque a capital do Ceará é uma das capitais que mais recebe turistas na América do Sul,  mas infelizmente a gente ainda não conseguiu convencer nenhum dos prefeitos até hoje que isso deveria ser uma demanda municipal”. 



O passado se repete, os destruidores são outros

Desde sua formação, há  540 milhões de anos atrás, a terra passou por 5 episódios de “extinção em massa”. O termo caracteriza a perda de mais de  70% das espécies em um “curto” período de tempo. Há 65 milhões de anos, o planeta vivenciou a sua quinta grande extinção, com o desaparecimento de milhares de espécies, inclusive dos dinossauros. O evento foi causado pela colisão de um enorme asteroide com a terra.


A enorme lista de espécies ameaçadas de extinção no Ceará é só a ponta do iceberg do que vivenciamos a nível global. Segundo cientistas, estamos presenciando a sexta extinção em massa da Terra. O aumento do números de espécies extintas, no entanto, não é causado por nenhum asteroide, mas sim pela ação humana. 


Com a destruição de habitats, a caça indiscriminada e a introdução de espécies exóticas, sem perceber, o homo sapiens causa consequências irreversíveis e com o potencial de acabar com o futuro de inúmeras espécies, inclusive da própria humanidade


As fontes entrevistadas para esta reportagem apontaram a importância das ONGs, mas frisaram que sem a participação da comunidade e de entidades governamentais, não haverá um futuro possível.

 
 
 

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