Fauna ameaçada: o impacto do tráfico, caça e pesca predatória nos animais do Ceará
- Ana Faely Nobre e Arine Figueiredo

- 15 de set. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 18 de abr. de 2025
De acordo com a ONU, de cada 10 animais capturados para o tráfico, 9 acabam morrendo antes de chegar ao destino final
Uma Jandaia-verdadeira pousa sobre uma árvore na caatinga. De forma calma e sorrateira, um homem com uma gaiola e equipamentos de caça a captura, como se a rapidez não fosse uma característica dessa ave. E bem ali, começa uma nova trajetória daquele animal. Longe de seu habitat natural, a Jandaia foi capturada e está sendo traficada. Agora, a ave de nome científico Aratinga jandaya se tornou mais uma estatística do tráfico de animais silvestres.

Entre 2021 e 2023 mais de 190 prisões foram realizadas devido aos crimes que ferem a Lei de Crimes Ambientais (Artigo 29 da Lei nº 9.605), de acordo com Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS).
Só no ano passado, a Polícia Militar do Ceará (PMCE) atuou no resgate de mais de 4 mil animais, 34% a mais quando comparado ao ano de 2022, segundo dados do Batalhão de Policiamento de Meio Ambiente (BPMA).
Esses dados evidenciam que a caça e o tráfico de animais silvestres são problemas complexos e recorrentes no estado do Ceará. As aves, em geral, são os animais mais afetados pelo tráfico. Já a caça prejudica, principalmente, tatus, onças e veados.


O comércio ilegal de animais silvestres: um mercado predatório
O tráfico de animais silvestres é uma das ameaças mais danosas à biodiversidade animal, e seu impacto é sentido em diversas regiões do planeta. Essa prática é a terceira atividade ilícita mais lucrativa do mundo, movimentando 10 bilhões de dólares por ano, ficando atrás apenas do tráfico de pessoas e de drogas. Os dados são da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil, um dos principais países envolvidos na exportação desses animais, tem como destinos preferenciais do tráfico a Europa, os Estados Unidos e a Ásia.

Já no Ceará, essa prática ilegal não apenas ameaça a fauna local, mas também contribui para a destruição de ecossistemas inteiros e a extinção de animais. As espécies ameaçadas pelo comércio clandestino variam, além das aves, entre primatas, mamíferos e répteis, por exemplo.



O Superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Deodato Ramalho, explica porque as aves são as mais contrabandeadas tanto no estado, quanto internacionalmente.
“ [O tráfico] ocorre principalmente com relação às aves por ser um animal que também atrai muito essas pessoas. Esse é o fato mais preocupante, que é a questão dos criminosos que capturam esses animais para fazer o tráfico de animais, inclusive para o tráfico internacional”.
As razões para as aves serem mais traficadas, dentre todos os animais, são diversas. De acordo com Weber Girão, mestre em biologia animal, a beleza e o canto são fatores cruciais para a captura e o comércio desses bichos. Outros animais muito caçados não têm as mesmas recorrências por terem destinações diferentes, explica Girão.
“Porque [as aves] são muito bonitas, né? Se for parar para pensar, mamífero em geral é recurso de caça. O que é que o pessoal vai pegar para criar? [...] Em geral mamíferos ou é caça ou perda de habitat”.

Muitos dos animais capturados no interior do estado têm seu destino cruzado por mares em navios ou aviões, como mostra o estudo realizado pela BTB Data. A maioria é capturada no nordeste e abastece os mercados dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Para fora do Brasil, as principais rotas são Fortaleza, no Ceará, em direção a países europeus, como Portugal, Alemanha, Holanda e Bélgica.
O Superintendente do Ibama, Deodato Ramalho, explica que a equipe do Instituto já flagrou diversas vezes traficantes no Aeroporto Internacional de Fortaleza na tentativa de enviar animais para fora do país.
Apesar da rota de tráfico internacional ser comum, alguns animais são traficados “dentro de casa”. Famosa pela grande variedade de produtos, a clássica feira da Parangaba é um ponto recorrente nas denúncias de venda ilegal de animais.

A presença física dos animais é cada vez mais rara nas feiras. Em vez disso, os visitantes encontram representantes que fazem ofertas e aliciam compradores interessados. Estes intermediários frequentemente mantêm os animais em depósitos fora do local e os animais só são apresentados aos compradores após a negociação.
A situação alarmante do tráfico ilegal de animais silvestres no Ceará revela um problema grave no estado. Com Fortaleza emergindo como um dos principais pontos de partida para essas atividades ilícitas, a região se torna um elo crucial na cadeia de comércio dessas espécies que abastece mercados internacionais. A captura e o contrabando dos silvestres não só comprometem a rica biodiversidade local, mas também alimentam uma indústria global cruel e predatória.

Caça no Ceará: conservação, impacto e controvérsia
No Ceará, a caça de animais silvestres se tornou uma prática preocupante que ameaça o ecossistema da região. Especialmente em áreas rurais, caçadores ilegais recorrem a métodos predatórios para capturar animais. Este problema não apenas prejudica o equilíbrio ecológico local, mas também concorre para a extinção desses bichos, situação que se agrava se for uma espécie endêmica.
De acordo com a SSPDS, a caça de animais silvestres, e outras infrações como manter em cativeiro espécies sem licença, nos municípios cearenses leva à prisão de, pelo menos, 5 pessoas por mês. Os principais tipos de caça que os animais são acometidos no estado são a caça esportiva e caça de subsistência.

A caça esportiva, também conhecida como caça recreativa, é uma prática na qual indivíduos, muitas vezes organizados em grupos, caçam animais silvestres por prazer, e não por necessidade. No Ceará, esse fenômeno tem ganhado força, com grupos de caça organizado, muitas vezes estruturados até em campeonatos. É o que explica Deodato Ramalho, Superintende do Ibama:
“Aqui no estado do Ceará a gente já detectou isso. Há um grupo de pessoas que se colocam como caçadores amadores como se fosse um esporte. Vez por outra a gente recebe denúncias inclusive de alguns segmentos que fazem uma espécie de campeonato com relação à caça. E claro que com relação a caça o objetivo é imediatamente a morte do animal, né?”

Mas também coexiste juntamente com essa atividade tão brutal, uma caça que existe por necessidade. A caça de subsistência é praticada por pessoas que dependem do animal para sua sobrevivência, seja como alimento ou renda. No entanto, essa prática ainda é problemática e é um tipo de caça mais complexa de solucionar, como explica o biólogo, mestre e doutor em zoologia, e pós-doutor em ecologia, Hugo Fernandes:
“Caça ainda é uma fonte de subsistência para muitas famílias, então se eu for só pelo lado punitivista eu vou ter que considerar também alternativas de renda, e eu não posso desconectar isso. Eu não posso achar que o problema para um crime, para uma situação criminal, é sempre a punição. Ela precisa acontecer, ela precisa ser revista. Mas eu preciso fornecer alternativa de renda, eu preciso fortalecer a educação em torno disso, para garantir que sobretudo a base que tá chegando não passe por esse mesmo processo”.

Fernandes ainda alerta para uma problemática de saúde humana que perpassa a caça de subsistência que tem como objetivo a alimentação. O biólogo explica que o consumo de carne de tatu pode levar aos caçadores e suas famílias a desenvolverem hanseníase se o animal estiver contaminado com a Mycobacterium leprae, bactéria causadora da doença.
"Então eu tenho um aumento dos índices de hanseníase ligados à caça. Então olha onde é que o tamanho do impacto que eu chego. É uma coisa tão ramificada que até muito difícil de mensurar, né?"

As consequências que a caça traz para todo o ecossistema que aquele animal está inserido são diversas. Desde a diminuição daquela espécie a uma possível extinção, até um desequilíbrio na cadeia alimentar daquela região. Fernandes afirma que a retirada desses animais diretamente da natureza impacta toda a fauna em larga escala.
"Quando a gente analisa aquele animal que foi abatido você vai multiplicar isso por milhares de animais abatidos. Você precisa entender toda a cadeia de consequência que acontece depois disso. Isso colabora inclusive para o estabelecimento de espécies exóticas mais resistentes"

Além da fixação desses animais exóticos, que são muitas vezes predadores que também vão contribuir com a diminuição das espécies endêmicas daquela região, a caça também prejudica os animais daquele habitat, tornando difícil a reprodução. É o que explica o Superintendente do Ibama, Deodato Ramalho:
"Isso é evidentemente que impacta muito negativamente nessas populações e faz com que determinados animais, especialmente aqueles que eventualmente o processo reprodutivo é mais complicado ou não tem tanto não tem tantos filhotes de uma vez"

Ibama identifica caçadores e resgata veados-catingueiros no Ceará - Superintendência do Ibama no Ceará/Reprodução
Se a situação é alarmante onde os animais são protegidos por lei que confere a plena proibição da caça, as espécies marinhas estão "afundando" em obstáculos. O mestre em biologia animal, Weber Girão, afirma que a pesca, por ser uma atividade comum e autorizada, é mais complexa por passar facilmente a ter caráter predatório.
"Por exemplo, a caça é proibida no Brasil, mas a pesca não. Então no momento que você coloca uma determinada espécie como ameaçada de extinção, você vai mexer com o interesse econômico. Então a briga de foice tá nos pesqueiros"

Pesca predatória: desafios na proteção do tesouro natural cearense
Com suas águas cristalinas, recifes de corais e rica biodiversidade, o Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio representa um refúgio para inúmeras espécies marinhas e um importante destino para a pesquisa ecológica. Com cerca de 100 espécies endêmicas e uma que é exclusiva do local, a esponja Sigma chinelo cearenses, o parque é uma região fundamental para os animais marinhos.
No entanto, a proteção deste ambiente único enfrenta desafios significativos. Por meio do uso de armadilhas ilegais, a pesca desenfreada de lagostas, conhecida como pesca predatória, ameaça a conservação da vida marinha no Ceará.

Criado há 27 anos, o parque é localizado a cerca de 10 milhas náuticas (18 quilômetros) de distância do Porto do Mucuripe - Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema)/ Reprodução
O Parque é, dentre as 39 unidades administradas pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), o maior corredor ecológico e a única unidade marinha inteiramente submersa. Porém, a pesca predatória, particularmente a captura ilegal de lagostas, é uma das principais ameaças ao Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio. Esse animal é uma espécie-alvo popular devido ao seu valor comercial elevado.
A bióloga e gestora do parque, Thaís Pereira, explica que a extração indiscriminada e não regulamentada dessas criaturas não só reduz suas populações, como também compromete a estrutura do ecossistema marinho local.
"Isso é muito desleal, porque ali não consegue renovar o ciclo de vida dos animais. Os estoques pesqueiros não conseguem acompanhar esse ritmo de pesca [...] Isso impacta os outros animais que não estão sendo pescados também. Fora que esses animais que foram pescados também são alimentos dos outros animais que já estão lá. Então interfere toda uma cadeia"

As armadilhas para as lagostas, chamadas de marambaias, são tambores de ferro ou alumínio amassados e afundados no mar, em pontos específicos, por mergulhadores. Além da atividade cruel realizada por essas marambaias, os tambores utilizados para as armadilhas ainda podem conter resquícios de óleo ou outra substância antes armazenada no cilindro que podem poluir o mar.
A proteção do Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio é respaldada por uma série de leis e regulamentações. A presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Ceará, Beatriz Azevedo, explica a lei que protege o local:
"A gente também tem a Lei de Crimes Ambientais, que prevê justamente esse tipo de crime, quando você caça indevidamente um animal em uma área que não era possível"

Já na rotina do parque, por ser uma unidade de conservação inteiramente submersa, a fiscalização e monitoramento dessa área é mais complexa. A retirada dessas armadilhas do fundo do mar é uma das ações de monitoramento feitas pela gestão do parque marinho. Contudo, Pereira, gestora da unidade, afirma que ainda há muito a ser feito no local:
"A gente tem certas dificuldades na fiscalização, né? Porque imagina aí dentro do mar para chegar lá é duas horas, mas a gente tem feito monitoramentos com os mergulhadores e tá em comunicação sempre com o Ibama e com a Semace para fazer essa fiscalização"
A bióloga e gestora comenta que o monitoramento é feito principalmente na temporada de mergulho, por ser a temporada mais fácil de realizar o embarque. Depois do mês de julho se inicia o "mês dos ventos", fator que dificulta a execução desse trabalho. Esse monitoramento é feito tanto em embarcações quanto por monitoramento aéreo, por meio de helicópteros.

Já a fiscalização tem o controle de pessoas que estão fazendo o mergulho em locais inadequados. Thaís Pereira explicita que existe uma diferença entre as zonas de conservação e as zonas de preservação. As de preservação só são liberadas para a gestão do parque e pesquisadores acompanhados. O mergulho esportivo não pode ocorrer nessa área.
Pereira ainda complementa, ao falar sobre atividades de mitigação desta pesca predatória, ao explicar sobre a atividade de educação ambiental com as comunidades tradicionais que utilizam a unidade. A gestora explica que são realizados programas de educação e conscientização que incentivam práticas pesqueiras sustentáveis e promovem a colaboração com as autoridades ambientais.

A importância desse ambiente é sentida pelos animais, que se deslocam até o parque por serem locais protegidos e seguros para sua sobrevivência.

A bióloga e gestora explica que:
"E se essas espécies estão ameaçadas de extinção é por algum motivo, ou porque tem uma caça predatória ou porque são animais realmente mais sensíveis a alguns impactos, e as unidades de conservação buscam diminuir esses impactos. Então as espécies buscam esses esses locais, o que mostra mais ainda a importância das unidade de conservação"
Quando se trata de animais marinhos afetados pela pesca predatória, a reabilitação é uma parte fundamental dos esforços de conservação. Entretanto, a situação difere entre os animais marinhos e animais terrestres, como a Aratinga jandaya, citada no início da reportagem. Isso porque esse segundo grupo ainda tem o apoio de alguns centros de reabilitação no estado, seja do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), seja de ONGs.

Alice Frota, Coordenadora do Programa de Conservação de Tartarugas Marinhas (Gtar) da ONG Instituto Verdeluz, afirma que o Ceará está carente de assistência quando a situação é o encalhe desses animais:
"Com relação aos encalhes, a gente só tem força de braço para Fortaleza. Quando o encalhe é de um animal vivo no litoral oeste do Ceará, ele não tem amparo de ninguém. [...] Então esses animais quando encalham no litoral oeste do Ceará, eles ficam a 'Deus, Dará', né?”
A reabilitação de animais silvestres e marinhos é essencial para a preservação da biodiversidade. Esses esforços garantem que espécies ameaçadas possam ser devolvidas aos seus habitats naturais, ajudando a manter o equilíbrio dos ecossistemas.



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