Educação ambiental: o caminho para a conservação da fauna no Ceará
- Lóren Souza

- 16 de set. de 2024
- 8 min de leitura
Em meio ao cenário local e nacional, a educação ambiental desponta como uma forma de trazer para a população um senso de responsabilidade sobre a natureza

Com eventos climáticos cada vez mais extremos, uma pauta domina os noticiários: os diversos incêndios florestais que atingem diversos pontos do Brasil. Segundo os últimos dados oficiais divulgados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), o País registra cerca de nove queimadas por hora.
No Ceará, inclusive, um incêndio de grandes proporções atingiu o maior parque natural em área urbana do Norte/Nordeste e o quarto da América Latina: o Parque Estadual do Cocó, em janeiro de 2024, localizado em Fortaleza. A recuperação da área degradada deve durar um ano, além de custar em torno de R$ 500 mil para o Estado.
Em meio ao cenário local e nacional, a educação ambiental desponta como uma forma de trazer para a população um senso de responsabilidade sobre a natureza.
O atual gestor do Parque do Cocó, Narciso Mota, acredita que esse processo de instrução para que as pessoas entendam as dinâmicas do meio ambiente, se conectem e preservem -no é um dos principais caminhos para atenuar a degradação ambiental e seus efeitos.
“É uma conversa com toda a comunidade que está habitando ou utilizando a área do parque ou as proximidades e acontece tanto pela internet quanto pessoalmente, nos eventos ou escolas. Até para ensinar o que fazer em casos de incêndios.”
Entrevistada em março de 2024, Mara Pinto integrava a equipe de educação ambiental do Parque do Cocó e deu mais detalhes de como funciona essa frente. Segundo ela, o trabalho principal é fazer o entorno conhecer todo o território do parque, além de desmistificar ideias de que os animais exóticos precisam ser mortos.
“Sempre romantizamos o gato e o cachorro, mas a cobra, a aranha, a iguana e a raposa parecem ser tratados como ameaças que devem ser eliminadas. Precisamos refletir sobre a nossa cultura e reconhecer o desequilíbrio que estamos causando ao meio ambiente. Cada animal tem sua função ecológica e desempenha um papel importante no equilíbrio da natureza.”

A natureza é a melhor professora
Para o biólogo Weber Girão, o contato com a natureza é transformador e deve ser a principal ferramenta para a educação ambiental. Isso porque essa relação direta e real com o meio ambiente gera encantamento e conexão.
“Nós estamos afastados da natureza. Pisamos com chinela para não encostar no chão, mas a matéria que faz o solo é o mesmo que faz a nossa carne. O contato com a natureza faz a diferença, qualquer trabalho nessa linha precisa envolver o campo”, declara.
Também reforça que é de perto que se aprende e os animais são agentes nesse processo de entender a conexão com o meio ambiente. “Você precisa ter o contato com o bicho vivo para poder saber. E a educação ambiental tira as pessoas das telas ou das salas e leva para o mato, com isso nós podemos ver e saber.”
Por isso, cita a Aratinga (jandaia-verdadeira) espécie de ave símbolo do estado cearense, como um exemplo.
O papel das comunidades na preservação dos recursos naturais
Quando se fala em educação ambiental, vários públicos podem ser compreendidos com ações e podem exercer diversas atuações no processo.
O gestor do Parque do Cocó, Narciso Mota, destaca o papel das comunidades tradicionais nesse processo. Na própria unidade, existem duas: a Boca da Barra e a Casa de Farinha.
Ele considera que elas são detentoras de conhecimentos e experiências sobre a região, o que colabora para manter esse controle e ajudam a monitorar qualquer ameaça que possa prejudicar a biodiversidade do parque.
Na mesma linha, o biólogo Hugo Fernandes ressalta as comunidades como essenciais e defende que precisam ter uma participação ativa. “Devemos parar de olhar para essa população como um agente externo, parar de achar que nós, acadêmicos ou de órgãos públicos, somos os detentores do conhecimento. Ela tem que ser reconhecida como parte desse processo e se apropriar dele para que consiga exercer sua cultura, suas atividades e sua história baseada no ambiente onde vivem e sempre viveram.”
Enquanto umas comunidades estão intrinsecamente relacionadas à preservação do meio ambiente, ao ponto de serem referência de saberes, outras ainda precisam de informação e conscientização. Saulo Castro, educador ambiental da ONG Aquasis, reforça que é um trabalho delicado e deve ser pautado na sensibilização e instrução, sem que haja imposição de condições às pessoas.
Segundo ele, as ações são adaptadas para explicar a importância da preservação e o motivo de certas práticas serem necessárias. Isso ocorre porque o modo de vida nessas comunidades deve ser considerado.
Trabalhando com peixes-bois, a realidade do litoral é rotina, tornando a prática da pesca uma questão de educação ambiental. Saulo afirma que ela não é um problema em si, mas pode afetar negativamente várias espécies pelo risco de enroscamento nas redes ou em outros equipamentos. Os efeitos serão graves ou não, pois altera de acordo com as ações tomadas pelos envolvidos.
“A interação entre pescadores e esses animais é complexa. Muitas vezes, os pescadores encontram tartarugas, botos ou outros animais em suas redes. Isso pode levar a diferentes reações: alguns podem tentar salvar o animal ou reportar o incidente, enquanto outros podem não se sentir tão envolvidos ou até causar mais danos.”
Na Praia do Futuro, em Fortaleza, onde o Instituto Verde Luz atua, a bióloga e coordenadora o projeto Tartarugas do Futuro, Alice Frota, conta que tem a colaboração da comunidade, um efeito da conscientização no local e do entendimento da importância do trabalho de preservação desenvolvido tanto para as tartarugas, quanto para as próprias pessoas do local.

Interesse ambiental e necessidades das comunidades vêm em primeiro lugar
A Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús, administrada pela Associação Caatinga, é outro local em que a educação ambiental está presente. Na região, mais de 15 mil famílias vivem ao redor dos mais de 6 mil hectares da UC.
Sendo uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, a área permite o uso sustentável dos recursos naturais presentes na área. Por isso, o gestor do local, Gilson Miranda, reforça que a ideia não é isolar, mas sim trabalhar com as famílias para que se tornem aliadas na conservação.
A população tem, portanto, acesso a informações e é sensibilizada para tomar consciência sobre suas ações em relação à natureza e reconhecer os impactos que causaram e podem provocar ao local, como a diminuição dos recursos naturais.
“A interação com a comunidade, através da educação ambiental para seus filhos nas escolas, é fundamental. Isso ajuda todos a entenderem a importância da área, principalmente em relação aos serviços ecossistêmicos e aos benefícios que uma área protegida traz para as pessoas”, explica o gestor.
Ele destaca também que não adianta romantizar a situação e achar que as pessoas não vão utilizar os recursos naturais. “Elas vão usar, mas é crucial que trabalhemos para explicar a importância da conservação, tanto dos animais quanto do uso sustentável da natureza.”
Nesse sentido, as ações giram em torno de demonstrar e capacitar a população com novas ferramentas e métodos que solucionem seus problemas e demandas diários e tenham impactos ambientais mínimos.
Entre as ações realizadas estão a implantação de placas solares, fogões ecoeficientes, que usam menos madeira e fossas de evapotranspiração. Outras ações são a capacitação para a meliponicultura, produção de mel a partir de espécies de abelhas nativas da Caatinga, e também a produção de mudas.
“Ensinamos como produzir mudas e realizar a coleta de sementes, além de trabalhar com o ciclo da água. Utilizamos o sistema bioágua, adaptado para reutilização da água na produção, o que permite uma produção mais estendida durante o ano e evita a contaminação das plantas”, exemplifica.
Não há conservação sem educação ambiental
A coordenadora do Instituto Verde Luz, Alice Frota, faz coro ao papel do processo educativo para a conservação. Para ela, apenas o monitoramento não é efetivo para a proteção de espécies e do meio ambiente.
Ela explica que a conservação é um processo desenvolvido a longo prazo e precisa da participação atores sociais - população, políticos, advogados, biólogos, cientistas etc - das gerações atuais e futuras. É essencial que esses agentes respeitem a natureza e continuem com trabalhos e ações de conservação.
“Sem esse entendimento, o trabalho realizado é inútil. Os seres humanos vivem pouco tempo comparado com a longevidade das espécies que monitoramos”, destaca a bióloga.
Nesse sentido, ela afirma que os trabalhos educativos são a base para todas as atividades do projeto. “Até mesmo nossos monitores de campo passam por capacitações em educação ambiental, pois é crucial que saibam comunicar a importância do trabalho de forma eficaz, não apenas com a terminologia científica, mas de maneira que os pescadores e a comunidade em geral possam compreender e se engajar.”

Contexto do público deve ser considerado
Quando se fala nas comunidades que serão alvos de educação ambiental, é preciso pensar que as abordagens escolhidas são adaptadas para cada público.
Idade, nível de escolaridade e condições socioeconômicas são levados em conta na hora de elaborar as ações. Além disso, as necessidades, o contexto local das pessoas e comunidades alvos, o grau de familiaridade delas com o meio ambiente e os animais também são considerados.
Saulo Castro exemplifica como as atividades educativas podem ser conduzidas com o projeto voltado para proteção do peixe-boi. O principal foco são ações de formação que propõem a sensibilização para a importância da espécie, assim como os motivos que a levaram a se tornar ameaçada de extinção e o que fazer caso se encontre com um desses animais.
“Adaptamos as formações para cobrir desde a importância da espécie até o manejo de animais encalhados, com um enfoque teórico e prático. Utilizamos pelúcias e réplicas de animais para tornar o aprendizado mais interativo. Também organizamos eventos socioambientais e culturais, como competições de mini embarcações em Aracati, Icapuí e Aquiraz, e oficinas de teatro, pintura e arte em geral”, relata.
Quais ações estão sendo tomadas pelo Poder Público?
Para Tadeu Lavor, da Coordenadoria de Defesa e Proteção Animal da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças do Clima (Sema), a educação ambiental é um elemento basilar para que fauna e flora sejam protegidas, respeitadas e preservadas.
“Hoje é muito difícil mudar a mente de um adulto que caçou a vida inteira. Se
não houver um trabalho de educação desde a infância, não se consegue mudar esse quadro. Entretanto, isso não está posto, por exemplo, no programa escolar da Secretaria de Educação, e tem que ser algo transversal”, defende.
A transversalidade do tema diz respeito a trata das questões ambientais em diversos espaços. “O pessoal do meio ambiente tem que atuar nas escolas, nos bairros, nas praças e em entidades, divulgando a importância da proteção ambiental da fauna e também da flora, pois ambos estão interligados”, destaca Tadeu.
Saindo da serra e indo ao mar, a educação ambiental também é presente na unidade de conservação Parque Pedra da Risca do Meio. No local, ela é feita tendo como público-alvo pescadores. Mas outros segmentos também são compreendidos, como escolas e visitantes.
“Nossos projetos incluem os Jovens Protagonistas, filhos de pescadores, e a Rede de Mulheres Marisqueiras e Pescadores. Trabalhamos com todos esses grupos e realizamos atividades educativas que são a base do nosso trabalho administrativo no parque”, explica Thaís Pereira, gestora da unidade.
Além disso, a equipe de reportagem procurou a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) para entender as ações de educação ambiental praticadas pelo município. No entanto, não houve resposta.

Apenas a educação não vai resolver os problemas da natureza
Embora as ações de educação e sensibilização sejam importantes, elas precisam ser complementadas por outras frentes como a de fiscalização e repressão de crimes. “Esse é um problema sistêmico que envolve não apenas nossa instituição, mas também o poder público. Precisamos de uma abordagem mais ampla para enfrentar esses desafios”, defende Saulo Castro.
Para além da maior participação da fiscalização e da gestão pública, há também questões estruturais do país que afastam a pauta ambiental - e também a educação ambiental - de ser uma prioridade entre as pessoas.
Hugo Fernandes considera esse contexto desafiador e mesmo que existam grandes iniciativas, o letramento não ganha força por conta dos inúmeros problemas sociais no estado e no país.
“Com uma distribuição de renda desigual, falta de água até pouco tempo e fome que ainda é um problema presente, quando a pessoa vai se preocupar com uma educação ambiental? É muito difícil cobrar das pessoas uma grande consciência ambiental sobre o que fazer com o solo, com a água, com o lixo quando ela tem problemas muito mais profundos”, reflete.



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