A Serra da Vida
- Rayane Lopes

- 23 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Sensação térmica de 40 graus, 6 horas de estrada e imprevistos que atrasaram ainda mais a chegada. Ansiedade, medo e um certo espírito aventureiro tomava conta de mim e das estudantes de jornalismo que estavam comigo. O carro se embrenhava cada vez mais dentro de uma estrada de terra. A outra única visão era da mata e ocasionalmente de alguns bichinhos. A pauta nos chamava. Estávamos subindo a Serra das Almas.
O caminho de ida foi tranquilo, o céu estava limpo, a paisagem na estrada era bonita, e chegamos na Serra antes do anoitecer. Assim que o carro começou o trajeto de subida algo mudou. O barulho estrondoso da cidade já não nos acompanhava. Ainda do carro, conseguimos avistar a imensidão de uma parte do Ceará. Lá do alto tudo é lindo e assustador.
Eu, Fabiana, Lóren e Faely atravessamos o Estado e fomos visitar uma das maiores Unidades de Conservação do Ceará. A Serra das Almas, santuário que faz divisa com o Piauí, abriga centenas de espécies, algumas delas estão na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da Fauna do Ceará. Perseguidas pela caça e pelo tráfico, é ali que encontram refúgio.
A ideia era chegar, passar a noite, fazer algumas entrevistas, fazer duas ou três trilhas e só. Fizemos isso? Sim, mas a viagem para aquele lugar também é capaz de mudar a perspectiva sobre a vida. O silêncio e a paz foram capazes de me transportar para outra realidade, onde as coisas desaceleram e a vida segue em um ritmo natural.
Na primeira manhã na serra eu saí para fora do alojamento enquanto a maioria ainda dormia. Me sentei em um banco e observei. Respirei fundo. Ouvi o som dos pássaros e afirmei para mim mesma que a vida definitivamente vale a pena ser vivida. E é em pequenos momentos como esse que achamos a poesia disso que chamamos de existência.
Por mais impressionante que fosse a imponência da natureza, eu não podia passar a manhã parada contemplando. O dia seria agitado. Uma das primeiras atividades foi a trilha. Com olhar atento, saímos em busca de animais e de conhecimento sobre o espaço. O repórter precisa se atentar aos detalhes, é onde estão as histórias mais bonitas.
A caminhada foi cansativa e íngreme. No meio da trilha, paramos em frente a uma espécie de lago com uma gruta. Era hora de sentar e recarregar as energias. A água caía melodicamente, como um soneto. Em outro ponto, observamos um mocó se alimentando no topo de uma grande pedra. O mocó é uma criaturinha pequena, do tamanho de um porquinho da índia, ele é marrom e não tem rabo. Ao comer, o movimento das bochechas lembra a um esquilo. Ele não aparenta ter medo de ser observado por humanos e quase sempre anda com um colega ao lado.
Ainda naquele dia fizemos 7 entrevistas, uma seguida outra. Ao fim da tarde fomos visitar uma gameleira centenária, a maior árvore do Ceará. A maior parte do trajeto nós fizemos de carro. Pegamos carona com o Fábio, biólogo e coordenador do projeto Periquito Cara-Suja. A conversa envolveu curiosidade aleatórias sobre os animais da região e assuntos sérios como o sucateamento dos órgãos federais de preservação ambiental.
O trecho a pé foi para contemplar. A cada respiro, a natureza parecia respirar junto. Ao final da trilha havia um mirante de onde podíamos observar a cidade de Crateús, ali também pudemos dimensionar o tamanho da reserva. Em algum lugar, em meio àqueles mais de 6 mil hectares de terra preservada, estavam onças pardas e animais que em poucos anos podem ser extintos.
No domingo de manhã foi hora de dar adeus. A viagem seria longa e nós tivemos que sair cedo. Eu olhava atentamente para cada detalhe, queria gravar tudo que eu pudesse daquele lugar que preserva e protege a vida. No final, na estreita estrada que leva à saída da serra, os animais brotavam de vários cantos daquele lugar, eram principalmente insetos, sapos e soins. Apesar de terem nos explicado o porquê do lugar se chamar Serra das Almas, não pude deixar de perceber a ironia, porque na verdade aquele lugar é a Serra da Vida.



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